Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

Minha foto
Nome:
Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

8.8.18

MEMÓRIAS CAPÍTULO 11: GRAVIDEZ SURPRESA MUSICADA



GRAVIDEZ SURPRESA MUSICADA
Por
Jean Kleber Mattos

Eu estava na rodoviária de Fortaleza numa noite de 1986, fazendo uma ligação interurbana para minha companheira Heloísa em Brasília. Ela ficara de confirmar a primeira gravidez da qual apenas tínhamos suspeitas. Ela atendeu à chamada e confirmou tudo. Os resultados dos testes não deixavam dúvidas. Ao meu lado estava a minha amiga Miriam Aguiar, aguardando ansiosa a resposta.

-Foi positivo ! – falei-.

-Yes ! disse ela - dando um tapa no ar, no melhor estilo Pelé.

Havíamos todos passado o carnaval em Salvador, em companhia de meus pais, em meio aos trios elétricos, na atmosfera de luz e cor do carnaval de rua.

Sucesso na época, o cantor Luiz Caldas, cantava uma música que dizia: “pega ela aí, pega ela aí...pra que? Pra passar batom...que cor?...violeta...”

O atraso na menstruação não era ainda suficiente para caracterizar a gravidez. As mulheres do grupo recorriam a conhecimentos ancestrais em busca de sinais positivos. Minha mãe estava convicta. Dizia ter observado uma pulsação extra no pescoço, o que, para ela era um sinal infalível.

Heloísa voltou à Brasília para assumir o emprego. Eu e meus pais seguimos para Fortaleza, pois eu ainda tinha uns dias de férias e precisava passar com eles.

Nada fora planejado, ou seja, o primeiro filho seria uma surpresa. Filhos amarram-nos pelo resto da vida. Sua chegada é sempre acompanhada de uma inegável ansiedade. Eles selam a união. São bem vindos sobretudo quando o casal está convicto e feliz com as escolhas.

E foi assim que se deu. O primogênito, viemos a saber mais tarde, era na verdade uma primogênita.

Deixei Fortaleza alguns dias depois de volta à Brasília, para encontrar Heloísa. Em conversa, ela me disse que, quando o médico confirmou-lhe a gravidez, viera-lhe à mente uma música da banda Blitz que versava assim: “mamãe estou...ligeiramente grávida...”

- Eu também pensei numa música – falei.

- Qual música?

- Não sou tão certinho como você...

- Qual música ?

- Um sucesso de Maria Alcina...

- Qual?

- “Seu delegado prenda o Tadeu...ele pegou minha irmã e...hã !!!”

***

1.8.18

SEMENTES - versos da poetisa potiguar Ângela Rodrigues Gurgel


Sementes

Por: Ângela Rodrigues Gurgel


No ventre da terra,
abrigada no leito 
da fria invernada,
a semente da vida
se antecipa ao homem,
 retorcido em si mesmo 
para caber no que ainda vai ser.
Corpo ansiando encontrar
aquilo que a semente desenha
nas águas que abrigam
a geometria sagrada
do espiral da vida
que ensaia o primeiro
de muitos infinitos...

***

Ângela M. Rodrigues de Oliveira P. Gurgel, poetisa, nasceu em Mossoró-RN, tendo vivido em outras cidades do Rio Grande do Norte (Almino Afonso, Caraúbas, Caicó e Natal) e do Pará (Tucuruí e Marabá). Atualmente mora em Mossoró-RN. Graduada em Ciências Sociais, e Filosofia na UERN (Universidade do Estado do RN) e Direito na UnP (Universidade Potiguar). Já exerceu o cargo de Secretária de Educação em Caráubas, onde também foi Diretora de uma escola de Ensino Médio.

***
Nota: A foto que ilustra o tema é do acervo do blog Suaveolens

29.6.18

PERDEMOS UM GRANDE FITOPATOLOGISTA E UM BOM AMIGO



Obituário
Raul de Lucena Duarte Ribeiro (27/08/1937 – 24/06/2018)
            Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1962), com mestrado e doutorado em Plant Pathology - University of Wisconsin - Madison (1969 e 1978).
            Professor Emérito da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro era considerado O Mestre dos Mestres! Era fluente em inglês e francês, além de sua reconhecida habilidade para redação e revisão ortográfica e gramatical nessas línguas. Ao longo de seus 42 anos de docência formou milhares de engenheiros agrônomos, dispersos por todo o país, instituições e empresas, atuando no ensino de fitopatologia, olericultura, agroecologia e agricultura orgânica. 
            Na Pesquisa, foi fundador dos Programas de Pós Graduação em Fitotecnia e de Pós Graduação em Agricultura Orgânica (UFRRJ). Alcançou 35 orientações de mestrado concluídas e outras 15 de doutorado, além de impactantes publicações científicas, contabilizando 141 artigos científicos dezenas de capítulos de livros.
            Em 1993 foi idealizador, juntamente com o amigo e pesquisador Dejair Lopes de Almeida, do projeto da “Fazendinha Agroecológica Km 47”, estabelecendo uma inédita parceria entre UFRRJ/EMBRAPA Agrobiologia/PESAGRO-Rio. Fazendinha que completa, agora em 2018, 25 anos de pesquisa, ensino e extensão em agroecologia e agricultura orgânica, considerada referência nacional e internacional.
             Outra importante realização do mestre Raul Lucena foi a fundação, 1985, da ABIO – Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro, da qual foi seu Presidente e Membro do Conselho Técnico.
            Foi reconhecido e homenageado por dezenas de turmas de formandos, com destaque para o Prêmio Ambiental von Martius, conferido pela Câmara Brasil Alemanha (2004), Professor Emérito da UFRRJ (2009) e Prêmio Johanna Dobereiner (2013) concedido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro- CREA RJ e Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado do Rio de Janeiro -AEARJ.
            O legado do mestre Raul Lucena é inestimável! Sua missão foi completada com excelência que só um baluarte é capaz! E como ele mesmo dizia “a realização de um professor é ver o sucesso de seus alunos e neste sentido me sinto realizado”.
                                      Seropédica, 24 de junho de 2018.
                                                                                              Prof. João Sebastião de Paula Araujo
Instituto de Agronomia-UFRRJ
                           

22.4.18

MEMÓRIAS : CAPÍTULO 11: O FANTASMA DA REPARTIÇÃO E O PERSEGUIDO POLÍTICO



O FANTASMA DA REPARTIÇÃO
Por
Jean Kleber Mattos
Aconteceu em Brasília em meados dos anos 1970s.
Na minha repartição havia um colega bem falante, culto, risonho e bastante eficiente. Morava em “república” com outros colegas.
Numa certa manhã não veio trabalhar. Os colegas do apartamento confirmaram que ele saíra na noite anterior e ainda não havia retornado à residência.
Decorrido dois dias sem notícias, nosso chefe solicitou à Secretaria de Segurança uma atenção especial ao caso. A polícia entrou na “republica” e recolheu alguns pertences do desaparecido, inclusive uma agenda. Os colegas da secção e mais alguns cidadãos cujos nomes estavam na agenda foram chamados a depor. O veículo do colega havia sido encontrado abandonado ao lado de um edifício chamado CASEB com uma calça, uma camisa e uma cueca sujos de sangue.
Numa varredura nos cerrados do entorno a polícia encontrou oito corpos. A mãe do desaparecido foi trazida do Nordeste para a devida identificação. Enquanto isso, o laboratório da polícia apresentava um laudo segundo o qual o sangue encontrado nas vestes não era humano.
Finalmente a roupa de um dos corpos, já em avançado estado de decomposição foi identificada pela mãe do rapaz, o enterro foi providenciado e o caso foi encerrado. Meu colega fora assassinado.
Uma missa de “réquiem” foi celebrada e os familiares voltaram ao Nordeste. Todos nós estávamos chocados com a tragédia.
Vinte anos depois estava eu no Jardim Botânico de Brasília para proferir uma palestra, quando, entre os presentes, identifiquei uma colega dos velhos tempos, D. Tânia. Não demorou muito e já conversávamos sobre os ocorridos dos anos 1970s. Mencionei então a tragédia do colega desaparecido. Ela sorriu e comentou:
- Ele está vivo !
Vendo minha cara de espanto, Tânia continuou:
- Aquela morte foi uma simulação. Ele precisava assumir outra identidade, outro sexo enfim, mas temia pelas dificuldades e pelas consequências. Resolveu então simular a própria morte e fugir para fora do país, tendo embarcado no dia do desaparecimento, quando a polícia ainda não tinha sido acionada. Enquanto os amigos, a família e a polícia lidavam com um possível assassinato, ele empreendia a fuga.
- Sou confidente dele – rebateu Tânia – esse é um segredo que prometi guardar, mas agora ele retornou ao Brasil com cidadania e identidade estrangeiras. O colega que nós conhecemos naquela época é hoje apenas um fantasma...

O PERSEGUIDO POLÍTICO
Por
Jean Kleber Mattos
Véspera de eleição para diretor da faculdade na Universidade de Brasília em 2002. Meu amigo Xavier comentava comigo sobre um fato recente. Ele havia dito a um colega na reitoria, que gostaria de indicar meu nome como candidato. Ao saber de sua intenção, o colega o advertira para o fato de que eu seria um radical de esquerda. Ri-me do fato e imediatamente reportei-me ao passado, segundo semestre de 1975.
Naquela época eu estava trabalhando na Embrapa, no Centro de Pesquisas Agropecuárias dos Cerrados (hoje Embrapa Cerrados). Adorava meu novo emprego. Com a desativação de meu departamento na Fundação Zoobotânica eu havia sido absorvido pela Empresa.
O Centro estava sendo implantado. Eu fazia parte da equipe de implantação. Tudo novo, salário dobrado e apartamento funcional. Dava-me bem com os colegas e auxiliava diretamente o diretor técnico nos preparativos do Simpósio Brasileiro dos Cerrados. Sentia-me muitíssimo bem. Finalmente uma situação favorável e boas condições de trabalho.
Durante cinco meses havíamos trabalhado na instalação dos laboratórios e elaborado os projetos de ampliação, uma vez que o Centro aproveitava as instalações de uma fazenda experimental do extinto DNPEA (Departamento Nacional de Pesquisas Agropecuárias).
Numa certa manhã o chefe administrativo mandou me chamar. Ao entrar na sala percebi que estava com um ar grave. Abatido mesmo. Pediu-me que sentasse em uma cadeira. Geralmente quando o chefe pede para a gente sentar numa cadeira para uma conversa a dois, as notícias não são boas.
Mostrou-me um envelope e disse:
-O “general” mandou uma carta dizendo que você está na lista negra da ditadura militar.
O “general” significava Serviço Nacional de Informações, o famoso SNI. Foi como se eu já esperasse. Não me sensibilizei de imediato. Apenas acenei afirmativamente com a cabeça.
E ele completou:
- Infelizmente vamos ter que demitir você. A empresa pagará todos os direitos trabalhistas, pois será por injusta causa. Eu realmente lamento muito, Jean!
Eu já havia recebido os direitos trabalhistas da Fundação Zoobotânica por ocasião da desativação do Departamento de Pesquisas. Receberia então mais uma “graninha”, desta vez da Embrapa. Com o montante eu construí uma casinha para meus pais em Fortaleza.
A notícia causou surpresa em todos os meus colegas. Durante os oito anos em que eu trabalhara em Brasília, em nenhum momento eu havia me manifestado em público sobre a ditadura militar. Eduardo Morales resumiu sua surpresa com uma frase:
- Subversivo, ele? Mas ele só conta piada...
O fato é que eu tinha uma ficha vermelha no SNI, por conta das atividades políticas ocorridas de 1964 a 1966, quando eu era graduando de agronomia em Fortaleza e em Recife. Eu havia sido membro da JUC (Juventude Universitária Católica). A “Juventude” era considerada pelos militares como uma das portas de entrada para a Ação Popular, um partido socialista clandestino que era reprimido com grande violência. Entre meus amigos mortos pela ditadura incluíam-se o padre Henrique, o Rui Frasão e o frei Tito. Eu era infinitamente menor que eles mas privara de sua amizade e companheirismo. Estava portanto “na lista” e por sorte estava vivo.
Mesmo antes de 1968, o ano mais negro da repressão com o Ato Institucional número 5, eu já havia decidido submergir. Em 1966, ano de minha graduação, eu prometera a mim mesmo afastar-me dos movimentos políticos e dedicar-me unicamente à tarefa de investir na minha capacitação técnica.
Quando eu concluí o mestrado em microbiologia dos solos em Recife, no instituto comandado por Chaves Batista, considerei que havia realizado o grande sonho da minha vida. Finalmente tornara-me um microbiologista. A partir de então, meu objetivo era unicamente o aperfeiçoamento técnico. Estudar e estudar. Desligar-me das atividades políticas tornara-se uma prioridade. Superar o sectarismo e o radicalismo. Um desafio.
Assustava-me grandemente a violência que marcava aquele período. Os guerrilheiros urbanos sequestravam embaixadores e os trocavam por companheiros presos. Na operação de sequestro geralmente morriam os seguranças do político. Nos porões da ditadura, a tortura campeava, com prisioneiros sendo mortos no cárcere. Alguns companheiros eram presos ou sequestrados na própria casa ou no emprego. Lembro-me de um que foi preso durante a cerimônia do próprio casamento. Alguns eram encontrados mortos em plena via pública após o sequestro, como fora o caso do padre Henrique em Recife.
Submergir para sobreviver era portanto o meu lema ao final dos anos 60. Inserir-me e contribuir para o desenvolvimento econômico de meu país, mesmo dentro de um modelo de agricultura ainda questionável. Tudo bem, pensei, confraternizemo-nos e trabalhemos juntos. Aprendamos junto e promovamos as mudanças lentamente, com amadurecimento e sem queimar etapas.
Comecei então a namorar o sistema. A procurar suas virtudes. A sorrir para ele. Tentativa sincera de sedução e obtenção de confiança, sem subterfúgios ou traições. A busca da paz. O exercício durou dez anos.
Tanto tempo de bom comportamento e nada. Tão logo a velha ficha de dez anos caiu, o general me mandou para o espaço. Não fui correspondido em minha tentativa de seduzir a ditadura. Para ela, eu não era confiável. Também não tinha padrinhos importantes que tivessem acompanhado a minha “regeneração”. Estava banido do paraíso.
Demorei alguns dias para desocupar o apartamento funcional. Não se encontram imóveis para alugar tipo “da noite para o dia”. Quando finalmente fui entregar as chaves do apartamento à Embrapa, o funcionário informou-me que eu excedera em dez dias (contando da data de minha demissão), o tempo de ocupação autorizada do imóvel. Teria que pagar os dez dias excedentes à Embrapa, a preço de mercado. Era um “baita” apartamento, situado na Asa Sul. Os dez dias custaram-me uma boa grana e eu ainda estava desempregado. Além disso, minha filha mais velha nascera recente e eu estava separado da mulher, que por coincidência atuava naquele momento como digitadora terceirizada, na própria Embrapa. A situação tinha ingredientes cruéis, mas a tragédia não era das maiores.
Somente anos mais tarde tomei conhecimento do que ocorrera nos bastidores. Um amigo da Embrapa contou-me sobre suas tentativas frustradas, dele e de outros, para impedir a minha demissão.
Na Fundação Zoobotânica eu também fizera amigos. Lá, eu era politicamente confiável. Além disso, a Fundação era estadual, o que facilitava as coisas. Meus amigos Francisco Valente e Silvio Brekenfeld facilitaram os trâmites e o secretário de agricultura Pedro Dantas autorizou meu regresso. Voltei para a Fundação ganhando a metade do salário da Embrapa e sem apartamento funcional mas... dando graças a Deus!
Pouco tempo depois, um outro amigo, o Orizomarden, chefe do novo departamento de pesquisas, comunicou-me que, entre outras funções na Fundação, eu seria o responsável técnico da Granja do Riacho Fundo, unidade situada ao lado de uma das residências do presidente da república, General Ernesto Geisel. Precedera-me no cargo o agrônomo Daniel Marques, que no futuro seria renomado político em Brasília.
Ora, a segurança do presidente cadastrava todos os que trabalhavam na Granja e investigavam seus antecedentes. Ficavam, portanto, “de olho” no vizinho !. Contei ao Orizomarden meu episódio na Embrapa. Ele desistiu imediatamente de minha designação. Eu podia trabalhar na Fundação Zoobotânica, mas longe do presidente Geisel. Tudo bem.
Naquele momento eu sequer imaginava que meu próximo empregador seria a Universidade de Brasília. Com o capitão Azevedo e tudo...



31.3.18

DESORDEM E RETROCESSO



DESORDEM E RETROCESSO
Por
Dalinha Catunda
*
Saudades da pátria amada
Saudades da mãe gentil
Do hino que eu cantava
Com veneração servil
Era com a mão no peito
Que eu cantava com respeito
O Hino do meu Brasil.
*
A bandeira hasteada
Chegava a me arrepiar
O verde era a esperança
Lá no alto a tremular
Já não vejo a paz no branco
E vendo meu país manco
Dá vontade de chorar.
*
Nossa pátria degradada
Padece nesse processo
Hoje já não acredito
Na frase: ORDEM E PROGRESSO
É triste ver a nação
Em plena degradação
Desordem e retrocesso.
*
Quando o sentimento pátrio
Bater na população
Quando o povo descobrir
Que tem voz vez e razão
Ajudará o Brasil
Sem por a mão no fuzil
Com coragem e união
*
Versos de Dalinha Catunda

Maria de Lourdes Aragão Catunda – Poetisa, Escritora e Cordelista. Nascida e criada em Ipueiras-CE, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro. Publica nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo", nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios" e nos blogs: Primeira Coluna, Ipueiras e Ethos-Paidéia. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É co-gestora convidada do blog Suaveolens, além de ter blog próprio: (cantinhodadalinha.blogspot).









23.3.18

MEMORIAS: CAPITULO 10: O JIPE VOADOR E O ANJO DA GUARDA BAIANO


Nascer do sol na Praia de Boa Viagem em Recife


O ANJO DA GUARDA BAIANO

Por

Jean Kleber Mattos


O primeiro lugar onde eu vi o sol se pondo no oceano foi Salvador. Em Recife, vejo o sol nascendo quando estou à janela de um hotel na Praia de Boa Viagem. Em Fortaleza, comparecia às “Luaradas” na orla, em dia de lua cheia. Ver a lua surgindo no horizonte marinho, imensa, é deslumbrante! Os grupos reúnem-se e sentam-se sobre a areia da praia para cantar e beber.

Quando vi Salvador pela primeira vez em meados dos anos 60, século XX, extasiei-me com a beleza da cidade. Anos mais tarde, já morando em Brasília, certo dia cansei-me do tédio da cidade. Era um sábado de manhã. Estacionei no aeroporto e comprei passagem para Salvador. Poucas horas depois estava na praia com amigos. Privilégio.

Em Salvador eu encontrava minhas antigas amizades cearenses que para lá se haviam transferido, Tereza e Marconi, e os novos amigos Carlos, Isabel , Arminda e Evandro.

Anos 70, as Discothèques estavam em alta. A fita das “Frenéticas” embalava os bailes:

“Mostre sua cara...

solte suas feras....

caia na gandaia

entre nessa festa!”...

Nos fins de semana o programa começava na sexta feira à noite. O estilo Discothèque com sua dança solta ensejava mais flirts. Inicialmente dançando em grupo, aos poucos o bailarinos iam-se dispersando e não raro, ao cabo de algum tempo,  o grupo havia crescido com o adendo de paqueras. Novas amizades, novos namoros.

Minha amiga Tereza narrou-me certa vez que, em uma das baladas, um moço que ela nunca vira antes acercou-se do grupo na pista de dança. Não demorou muito e estava dançando agregado e de olho nela. Simpatia mútua, quando parou o som, estavam de papo. Apresentações, apertos de mão, boas vindas ao que chegava, o ritual de sempre. Parecia que o grupo o absorvera bem.

Finda a noite, o moço ofereceu carona à Tereza. Ela ficou em dúvida. Afinal, viera no carro do grupo e certamente voltaria com eles. O moço, embora simpático, era até então um deconhecido, o que gerava o receio de alguma cilada.

Estimulada pelo grupo, Tereza aceitou a carona. Alguém do grupo falou, como de costume:

- Veja lá, hein ? Cuide bem de nossa amiga !

Ao que o moço respondeu:

- Fiquem tranquilos. Eu sou o anjo da guarda dela !...

Todos riram e o comboio partiu. Conforme prometido, o moço deixou Tereza em casa na tranquilidade. Ela dormiu como uma princesa.

Na manhã seguinte, o telefone tocou ainda cedo. Sonolenta, Tereza atendeu e levou um susto. O carro do grupo havia capotado de volta da boate e todos tinham sido levados para o hospital. Havia feridos mas ninguém corria risco de vida ou de sequelas graves.

Graças a Deus.



O JIPE VOADOR

Por

Jean Kleber Mattos 


Estava com dezesseis anos quando, em 1962, retornei a Ipueiras. Oito anos haviam decorrido desde a partida em janeiro de 1953. Viajei de trem com minha mãe, D. Mundita, e a prima dela, Carlinda, professora de piano. Curta permanência. Apenas alguns dias.

Hospedamo-nos na casa de meu padrinho, Costa Matos. Lá, fui apresentado a um sobrinho da Alderí, dona da casa, também adolescente e hóspede em férias. Bom companheiro.

Em moda na TV da época, os espetáculos marciais: "Tele Catch". À tarde, para diversão das crianças, o Lalú e o Carlito, filhos do Costa Matos, simulávamos uma luta de boxe como na TV. Encarapitados nos berços e redes, os meninos divertiam-se com o "show". Volta e meia um golpe mais duro escapava. Pedidos de desculpas. Quase não lembrava hoje do real nome do colega, Marconi, pois Costa Matos, exímio em colocar apelidos, o chamava de “Galante”. Uma óbvia referência ao perfil de paquerador, com capricho no vestir e no pentear o cabelo que lhe compunham a figura.

Localizei recentemente o Carlito, engenheiro de pesca Carlos Maria Moreira Costa Matos, Chefe de Gabinete do Ibama-Ceará. Lalú formou-se em medicina. É o Dr. José Cláver Moreira Costa Matos, famoso médico com destacada atuação em Fortaleza, no tratamento de crianças vítimas de incêndio.

No roteiro de visitas, inevitável, os miraculados. A imagem milagrosa da Virgem de Fátima estivera em Ipueiras em 1953 e dois amigos nossos, o Vicente que era mudo e a mãe da Isa Catunda, antes quase cega pela catarata, haviam sido recompensados por sua fé e devoção. Incrível ver o Vicente falar. Emocionante ver a mãe da Isa enxergar. Visitamos também Tia Catarina que havia morado no Videl, e D. Augusta, professora, amiga de minha mãe.

De início, o social pareceu prejudicado por minha condição momentânea de esportista. Sócio atleta de natação do Clube dos "Diários", eu somente permaneceria na equipe se atingisse a marca olímpica do clube nas provas que estavam por vir. Cuidava para não consumir álcool e dormir cedo, além de ser não fumante.

Eu já percebera que a cerveja era por certo a grande atração da rapaziada naquela idade. À noite íamos à praça principal encontrar as moças. Também comparecíamos às festas. Lá, encontraria meus primos Francisco e Manuelito. Lembro-me que o Carlito observava uma das festas à janela do Paço da Prefeitura. Em dado momento, comunicou-me que estava indo para casa, dormir. Preparei-me para acompanhá-lo, pois tratava-se de uma criança. Ele recusou dizendo que andava a vontade em Ipueiras, a qualquer hora do dia ou da noite.

Percebi então que a vivência em Fortaleza me fizera esquecer quão segura era a velha Ipueiras.

Algo me encantava de modo especial. A delicada beleza das moças. Hoje, passadas décadas, a memória alcança dois ou três nomes, se muito. Talvez porque a identificação se dava com mais ênfase no "filho de quem", que propriamente no nome de batismo. Assim, fazem eco em minha mente apenas os sobrenomes: Pinho, Catunda, Aragão, Mourão, Souza .... Enfim, os nomes das tradicionais famílias ipueirenses.

Em duas tardes, o ponto de encontro foi o Arco do Triunfo de N. S. de Fátima. Grupo misto. As moças comentavam sobre o ganho de indulgência a quem rezasse sob o arco. Lembraram-me de assumir uma atitude respeitosa no local. Padre Belarmino tinha especial zelo por aquele ambiente. Aviso desnecessário. Eu ainda estava impactado pelo encontro com os miraculados.

Numa tarde, alguns amigos convidaram-me para dar uma volta de jipe pela cidade. Findamos na pista de pouso, perto da estação de trem. O veículo era dirigido por Vavá, filho do Tim Mourão, ex-prefeito da cidade. Alguém falou que íamos levantar voo. Fiquei curioso. De fato, o veículo partiu da cabeceira da pista. O motorista com o "pé embaixo". O ponteiro do velocímetro tremulava na marca dos cem. Os passageiros transpiravam adrenalina.

Faziam sucesso na época os "pegas" automobilísticos do filme "Juventude Transviada" protagonizado pelo "enfant terrible" James Dean. Eu estava ali vivenciando a versão Ipueirense. Genial!

Na volta de trem para Fortaleza, dois ou três colegas estavam junto. Iam à capital. Lembro-me que Manuelito integrava a comitiva. Demos preferência a viajar no vagão restaurante. Os amigos haviam mandado "baixar" algumas cervejas. 

Grande sucesso na época com o intérprete Miltinho, os versos da canção:

"Saudade! Criatura impertinente, entra no peito da gente e dói como não sei o que..." 

Nós cantávamos e batucávamos na mesa. Eu pensava na beleza singela de uma das moças de Ipueiras. Não conseguia esquecê-la. Percebia agora que a flecha de Cupido transpassara-me o coração. Havíamos prometido trocar cartas. Romântico.

Hoje os jovens comunicam-se pela Internet. Mensagens ultrarrápidas e coloridas. No início dos anos sessenta dominavam as cartas, postadas no correio. Demoravam a chegar, mas traziam o cheiro e a vibração da musa. Cartas eram cheiradas, beijadas e abraçadas. Por certo ainda o são, mesmo neste mundo "wébico" e globalizado. Resolvi por alguns momentos esquecer a "performance" atlética e acompanhar os amigos na cervejada.

Afinal, ninguém é de ferro!



20.3.18

MEMÓRIAS CAPÍTULO 9 : A FÉ DO POVO E OS CAMINHOS DA VIDA



IPUEIRAS DE FÉ

Por
Jean Kleber Mattos

O primeiro casamento religioso que eu vi, foi em Ipueiras. Final dos anos quarenta, século vinte. Foi o casamento de meu padrinho de crisma, José Costa Matos com a ipueirense Alderi Moreira. Quando se é criança vê-se tudo maior, daí foi a cerimônia mais grandiosa que testemunhei nesta vida. Bonita e poderosa. Paramentos de gala com as cores do Vaticano. Fios d´ouro à vontade. Padre Francisco Correia Lima, o vigário, oficiou.
A fumaça branca emanada do turíbulo embalado pelo acólito em movimentos pendulares, dava um toque mágico ao ambiente do altar-mor. Se bem me lembro, o acólito vestia uma batina vermelha. Por sobre ela, uma sobrepeliz branca, com mangas rendadas. Também uma pala vermelha. Meus conhecimentos sobre liturgia católica são escassos, mas acho que era isso.
Lembro-me de umas flores brancas artificiais muito bonitas que surgiam no altar principal em dias de festa. Adonias era o sacristão. Acendia e apagava os candelabros. Havia uns cilindros brancos que pareciam velas. Não eram. Cotos de vela eram habilmente encaixados num depósito no ápice da peça. Estes sim, velas de parafina. O acendedor era uma peça metálica na extremidade de uma vara. Também servia para apagar. Tinha um pavio e um abafador em forma de cone metálico. Tudo na mesma peça.
Aquilo tudo me encantava. Queria ser padre. "Celebrava" missas em casa. Procurava imitar os movimentos do padre. Pequenas bolachas tipo "Ceci" faziam as vezes de hóstia, para delícia dos colegas. A comunhão era sem dúvida o momento mais aguardado.
Lembro-me de minha primeira comunhão. Meus pais envolveram o Educandário na celebração. Ofereceram um café da manhã a todos os alunos. Pediram-lhes que comparecessem vestidos de branco. Os que já haviam feito a primeira comunhão comungaram comigo. Depois da missa, o café "apoteótico" na sede da escola. Todos haviam sido convidados. Uma festa para ninguém esquecer.
E o jejum para a comunhão?. Às vezes batia a hipoglicemia. As velas pareciam tremular um pouco demais. Leve desmaio. "Agonia", dizia-se. Recuperação rápida. Eu gostava da cerimônia de "Te Deum", realizada sempre ao anoitecer. É rápida e bonita, bem ao gosto de uma criança. O ouro do cálice, a custódia dourada e radiante, o "design" do sacrário. Um encanto!
Eu gostaria de acolitar, mas era muito criança. Frota Neto, Nemésio, Marcondes e mais alguns, que eram maiores, já acolitavam a missa em latim. Meu amigo Nemésio, filho de "seu" Edmundo, ainda deu-me algumas lições, mas não adiantou:
- Introibo ad altare Dei...!
- ........!
- Qual é a resposta?
- Esqueci...
- Ad Deum qui lætificat juventutem meam!
Minha avó, D. Luizinha, com desvelo, confeccionou uns paramentos de cor verde, adequados ao meu tamanho. Fez-me a surpresa aproveitando um regresso meu de Fortaleza. Inesquecível.
Festas dos santos com quermesses, leilões e queima de fogos. Lembro-me de um avião artesanal que nas noites de festa corria num fio, propelido por pólvora. Ele partia da torre da igreja e ao chegar próximo ao solo, explodia. Neste momento, na Praça da Matriz, ficávamos com a respiração suspensa. Numa noite, a explosão retardou e um colega meu tentou segurar o brinquedo que então explodiu. Queimadura grave. Danos às mãos.
O menino, filho de "seu" Gonçalo Ximenes, teria que esperar a lenta cicatrização com a mão enfaixada. Foi, durante algum tempo, o herói da meninada.
E as procissões? Andores enfeitados com flores diversas e aspargo ornamental. A impressionante rigidez das imagens. Filas de fiéis caminhantes, alguns exibindo as fitas identificadores das congregações religiosas: Marianos e Filhas de Maria em destaque. Tudo isso ao som dos hinos, contando com a harmonia da banda de música local: "Dá nossa fé oh Virgem...o brado abençoai...Queremos Deus...Que é nosso Rei...Queremos Deus...Que é nosso Pai..."
Havia um hino de beleza ímpar, que era entoado na hora da comunhão. Aí, destaque para a professora Diana ao órgão (chamado à época de "harmônio"): 
"Jesus nosso Pai...
Jesus Redentor...
Te adoramos...
Na Eucaristia...
Jesus de Maria...
Jesus Rei de amor!" 
Este maravilhoso hinário ainda hoje me inspira, muito embora não seja eu assíduo à Igreja Católica atualmente.
O escritor e cronista Carlos Heitor Cony, que se dizia ateu, volta e meia era visto entre os fiéis, participando de missas no Rio de Janeiro. Ele também se encantava com a beleza da liturgia católica, sobretudo com os hinos.
Somente uma cerimônia me assustava. A missa de requiem. Paramentos negros com realces brancos. O contraste total. Atmosfera pesada. Perda e sofrimento. Na véspera, o sino em toque compassado anunciando a jornada do féretro. "A misericórdia da Igreja", conforme enfatizaria no futuro, o dramaturgo Nelson Rodrigues.Quase sempre aos domingos eu via, à porta da igreja, um ou outro "anjinho" em seu pequeno esquife de cor azul clara, ornamentado com flores de "Jasmim de Caiena". Cerimônia fúnebre. Os altos índices de mortalidade infantil refletiam o subdesenvolvimento da região. Impossível falar minimamente sobre a Igreja Católica na Ipueiras daqueles idos, sem mencionar as ladainhas vespertinas que se seguiam à reza do terço. Tudo em latim. Público predominantemente feminino. As Filhas de Maria, as donas de casa e suas crianças.
Sancta Maria,
- Ora pro nobis.
...Sancta Dei Genitrix, Sancta Virgo virginum, Mater Christi, Mater divinæ gratiæ, Mater purissima, Mater castissima...Lembro-me de uma professora, Zélia, amiga de minha mãe, coordenando a reza.
Quando estive em Ipueiras em 1962, com dezesseis anos, ouvi, de viva voz, em presença de minha mãe, D. Mundita, e da prima Carlinda, o relato fantástico de dois ipueirenses miraculados.
Madrugada do dia nove de novembro de 1953. Começavam os preparativos para a partida da imagem peregrina da Virgem de Fátima, vinda de Portugal e que visitava Ipueiras. Os fiéis gritavam "vivas" a Nossa Senhora. De repente um "viva" diferente se ouviu. Era Vicente, o padeiro mudo de nascença, que acabara de aclamar a santa. Bem perto dali, ainda na Praça da Matriz, bem ao lado da igreja, a mãe da catequista Isa Catunda, quase cega de catarata, disse à filha que iria para casa, que era próxima. A filha aquiesceu e disse: "eu levo a senhora". "Não precisa", respondeu a mãe: "estou vendo o caminho."
Os milagres foram relatados mais tarde no livro "Vendo a Vida Passar" de Padre Francisco Correia Lima, com trechos reproduzidos no livro "Quase" de Frota Neto, e por Marcondes Rosa, em crônica, no site de Ipueiras.
Em regozijo, Ipueiras fez construir na rua General Sampaio, em frente à casa do padre vigário, um arco, que Frota Neto em seu livro "Quase" chamou de Arco do Triunfo de N.S. de Fátima. O monumento é hoje de alvenaria, e feito, segundo Bérgson Frota em artigo sobre o tema no blog de Ipueiras, pelo mesmo arquiteto que fez o Cristo de Ipueiras, Pedro Frutuoso. A obra foi concluída em 1954.
O arco representa o triunfo da fé do povo de Ipueiras !



TITO, O ZAGUEIRO

Por
Jean Kleber Mattos


O cenário é um pequeno campo de futebol num terreno lateral à Igreja do Cristo Rei, em Fortaleza, no Ceará, sede da Congregação Mariana. Ano de 1958. Times da categoria infantil disputam um campeonato. Um deles denomina-se Ceará. O uniforme é alvinegro como o da famosa equipe de profissionais. Tenho 13 anos. Jogo no time. Sou o goleiro. À minha direita durante todo o campeonato, um zagueiro se desdobra como penúltima barreira. A bola que passar por ele sou obrigado a pegar. Pouca coisa passa, felizmente. O zagueiro é bom. Chama-se Tito. No ataque, nossos companheiros fazem bem o seu papel. Ao final do torneio fomos campeões.
Mas o zagueiro chama a atenção de todos. Inteligência e destemor. Ao partir sobre o atacante o fazia com o corpo levemente inclinado para traz. Se atingido por uma bolada, a inclinação diminuiria os danos físicos, além de modificar a trajetória da bola que, resvalando, poderia escapar da grande área.
Futebol é esporte bruto e a canela sofre. Um flagrante de coragem: por vezes o zagueiro jogava com a canela enfaixada. Mas jogava. E o fazia com o mesmo denodo. Eu observava curioso aquela natureza heroica.
O ambiente era religioso. Uma agremiação mariana e um coral eclesial. Eu atuava nos dois. Um ano após meu ingresso no coral, Tito nele ingressou. Já lá estavam seus irmãos Ildefonso e Jorge. Coral misto. Rapazes e moças. Cantávamos nas missas dominicais, nos casamentos e nas celebrações religiosas mais solenes. Às vezes participávamos de recitais no Teatro José de Alencar e na televisão.
Veio o vestibular. Entrei na faculdade. Uma vez lá, fui nucleado pela Juventude Universitária Católica (JUC), da igreja progressista (alguns diziam esquerdista). Tito ainda estava no segundo grau, mas já optara pela Juventude Estudantil Católica (JEC). Uma experiência diferente. O senso crítico era o apanágio daquelas “Juventudes”.
Adolescentes que éramos, preferíamos ter como namoradas as militantes do movimento. Comunhão de idéias e ideais. Um dia, conversando longamente com minha namorada da época, ela referiu-se ao fato de, algum tempo antes, Tito ter-lhe proposto namoro. “Qual foi sua resposta?”-perguntei. “Pedi um tempo”, disse-me ela. Menina sensível, disse-me que percebera uma aura especial no candidato, como se ele estivesse predestinado à vida monástica.
Dois anos mais tarde, muda o cenário. Estamos em Recife, na rua dos Coelhos, vizinhança do Hospital Pedro II. Moro na Casa dos Permanentes, um pensionato destinado a membros de equipes de direção da Ação Católica de âmbito regional. Pertenço à equipe regional da JUC-Nordeste. Na mesma casa residem os permanentes da JEC regional. Denis, de Alagoas, Luiz, do Rio Grande do Norte e Tito, do Ceará.
Compartilhamos todos o mesmo dormitório. Ainda estou cursando agronomia na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Uma vida cheia de reuniões, orações, leituras e relatórios. Também sobressaltos, pois corre o ano de 1965, em plena ditadura militar, e nós, tidos como esquerdistas perigosos, estávamos fadados pelo menos à prisão.
Sempre abominei a violência desde que me tive por gente. Optei na época por uma linha de meditação com mais reflexão e menos provocação. Eu tinha a impressão de que meus colegas nada temiam de tantos riscos que optavam por correr. Passeatas, ações secretas, atuação em centros acadêmicos aguerridos, enfim, quase todos em ansioso ritmo de enfrentamento da ditadura.
Eu temia por minha sorte. Medo de ser preso ou morto. Preferia, portanto, as ações mais institucionais do tipo padrão, como, por exemplo, seguir o genial Dom Helder Câmara em seu trabalho pastoral, de natureza mais diplomática. À noite, ao invés de ler as geografias de Josué de Castro eu preferia conhecer a vida de Charles de Foucault, missionário na África, que foi considerado digno de ser chamado, por sua caridade, "Irmão Universal".
Um dia surpreendi meu colega Tito com meu livro nas mãos, em atenta leitura. Pediu-me o livro por empréstimo. Obviamente emprestei-o. Daquele dia em diante aquele livro passou a ser o tal da cabeceira do Tito. Findou que dei-o de presente. Ele lia e anotava comentários no próprio livro.
Veio minha formatura em junho de 1966. Deixei a JUC e a Casa dos Permanentes e segui para a pós-graduação e para a vida profissional.
Somente dois anos depois, já em Brasília, voltei a ter notícias do Tito. Ele optara pela vida monástica. Seria Dominicano.


+++

NOTA: Tito de Alencar Lima, o "Tito" dessa narrativa, viria a ser preso durante o regime militar que vigorou de 1964 até 1985 no Brasil. Torturado, junto com outros dominicanos, conforme se pode ver no filme "Batismo de Sangue", faleceu algum tempo depois na França, vítima de suicídio.