Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

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Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

15.3.18

MEMÓRIAS CAPÍTULO 7 O NADADOR DA AGRONOMIA



O NADADOR DA AGRONOMIA
Por
Jean Kleber Mattos

Eu tinha dezessete anos quando apaixonei-me por uma garota de minha rua, em Fortaleza. Ela tinha quatorze. Obviamente os pais faziam restrições ao namoro dos menores. Não meus pais, mas os dela. Havia também a diferença de classe social. A família da garota era de classe média padrão e a minha era apenas remediada. Uma chance de nos encontrarmos seria se fossemos do mesmo clube. A família dela era sócia do famoso Náutico Atlético Cearense. Meu pai era sócio do Comercial Clube, bem mais modesto. Um amigo meu aconselhou-me tentar ingressar no Náutico como sócio atleta da natação.
- Não paga mensalidade – dizia ele.
Dei uma risada. Eu não sabia nadar.
Ocorreu-me que, sendo eu congregado mariano junto aos jesuítas, tinha acesso à piscina que eles tinham no Colégio Santo Inácio em Baturité, por ocasião dos retiros espirituais. Na primeira viagem, ganhei a piscina, obvio que na parte rasa, para aprender a nadar. Por um descuido, caí em determinado momento na parte funda e tive de ser retirado pelos colegas para não morrer afogado. No mesmo passeio, empenhei-me nas tentativas até que consegui nadar por seis metros. Vitória. Prossegui na tarefa e já estava nadando cinquenta metros alguns dias depois.
Quando voltei à Fortaleza procurei o treinador do Náutico, um russo, para concorrer a uma vaga na equipe.
-Quantos metros você nada num só tiro? – perguntou.
-Cem metros- falei
-Quando você conseguir nadar quatrocentos metros volte aqui.
Treinei por quase um mês no mar. Quando finalmente consegui nadar meio quilômetro, apresentei-me novamente.
O treinador me mandou nadar cem metros enquanto observava. Ao final disse:
- Um pouco lento e sem estilo. Vou lhe dar uma carteira provisória de quinze dias. Se ao cabo desse tempo você não conseguir nadar cem metros em um minuto e vinte segundos, está fora. OK?
- OK ! - falei.
Durante quinze dias fui sócio atleta do Náutico Atlético Cearense, treinando diariamente. Decorrido o prazo estabelecido, fiz o teste. Fui reprovado.
Eu era nadador fundista. Aquele nadador para grandes distâncias, mas que não tem velocidade. Um exemplo de fundista foi o capitão da marinha mercante britânica Matthew Webb que em  agosto de 1875 atravessou a nado o Canal da Mancha, cobrindo uma distância de 61 quilômetros em 21 horas e 45 minutos.
Por interferência de amigos que pertenciam à equipe de natação do Clube dos Diários, fui inscrito no grupo. Nosso ídolo na época era o nadador Manoel dos Santos que em 21 de setembro de 1961 no Rio de Janeiro, nadando sozinho na piscina do Clube de Regatas Guanabara, estabelecera um novo recorde mundial para os 100 metros livre, com o tempo de 53s6. Manoel também foi recordista sul-americano dos 100 metros livre por onze anos, entre 1958 e 1969. Ele nos deu aulas como convidado, e dizia que, em vésperas de competição para o nadador, as vinte quatro horas do dia  deveriam ser assim divididas: oito horas treinando, oito horas comendo e oito horas dormindo. Nosso treinamento incluía ginástica e nado livre. O Campeonato Cearense de Natação fora anunciado. Os clubes Náutico e Diários tinham as equipes de ponta na época. A diretoria do Náutico comunicou que o clube não participaria. Como consequência, as provas se dariam no Clube dos Diários, em piscina de 25 metros. Os atletas seriam apenas o do próprio clube. O treinador Jaime inscreveu-me na prova de quatrocentos metros, a qual, numa piscina de vinte e cinco metros acarreta dezesseis viradas. Fácil de confundir o atleta.
No dia da prova, pulei na água e nadei. Quando calculei que havia concluído, olhei pata trás e vi um nadador ainda vindo numa das raias. Como eu sabia que era o mais lento, virei para completar os cinquenta metros restantes. Fui flagrantemente o último a chegar. Fora da piscina, o diretor de esportes já cheio de whisky, berrou:
-Seu filho da puta ! Você vai ser expulso da equipe !
Meus colegas logo se aproximaram para me dizer que não levasse aquilo em consideração. Eu permaneceria na equipe.
O treinador Jaime acreditava realmente em meus dotes de fundista. Inscreveu-me então na famosa “Prova Heroica”. Eram seis quilômetros no mar. Passei a treinar intensivamente a partir de então. Cheguei a nadar três mil metros na piscina numa tarde. Tanto esforço resultou numa sinusite. Fiquei mal. Depois do tratamento, o médico vaticinou:
- Você não pode voltar a competir ! Se voltar, a sinusite volta !
Meus amigos do Clube dos Diários realmente gostavam de mim. Ao comunicar o laudo médico, o treinador Jaime mais uma vez me deu uma chance:
- Você é bem humorado – disse – vou inscrever você na equipe dos Aqualoucos.
Meu Deus. Aqualoucos são acrobatas e palhaços que fazem estripulias nos trampolins. Num ato de boa vontade, compareci ao treinamento. Jaime comandou:
-Suba no trampolim de três metros e salte !
Quando cheguei lá em cima e olhei para baixo, amarelei. Tinha pânico de altura. Chegara ao fim minha carreira de nadador, pensei. Não imaginava eu que dois anos depois encontrar-me-ia novamente às voltas com uma competição na água.
Em 1964, realizaram-se em Fortaleza as Olimpíadas Universitárias. Eu nem de longe imaginava em participar. Após o fracasso no Clube dos Diários eu mergulhara numa maratona de estudos, virando noites, para passar no vestibular. Consegui aprovação de primeira, para o curso de agronomia. Minha vida mudou. Ingressei na política estudantil, dormia tarde e frequentava todas as festas e “tertúlias” que podia. Nas festas, enchia a cara de “Cuba Libre”, uma mistura de Rum Bacardi com Coca-Cola, muito popular à época. Eu cursava então o segundo ano da escola.
Certo dia fui procurado por um colega do comitê olímpico da escola, que me falou:
- Jean, fizemos uma lista de possíveis nadadores para o time da escola e fomos informados de que você já nadou pelos Diários...
Esclareci que não havia sido um nadador de ponta e que minha vida de farras desde então me incapacitava para a natação competitiva.
-Temos três atletas inscritos – falou ele – falta apenas um para o revezamento. Você está fraco mas tem estilo e deslizamento. Você seria o primeiro a pular na água. Os outros atletas tentariam tirar a diferença. Contamos com a sua ajuda.
Eu não podia me furtar. Concordei. Eu já conhecia dois dos três atletas. Um era o Francisco Cunha, um cara estudioso, gostava de filosofar e tinha aptidão para a política. Viria a ser no futuro um expoente na EMATER de Santa Catarina. O outro era o José Albérsio Lima, a quem reencontraria bem mais tarde na Sociedade Brasileira de Fitopatologia. Chegaríamos a ocupar a presidência da sociedade, eu em 1974, ele em 1985.
O Cunha era disciplinado e bem técnico. Tomava glicose na veia em véspera de competição, o que era uma prática muito comum à época, principalmente para os casos de cólica hepática decorrente dos excessos de bebida alcoólica, o que não era, claro, o caso dele.
Fomos treinar na piscina de 25m do Colégio Militar, lugar escolhido para a competição. Nadei cem metros sob o olhar de Cunha. Ao final ele perguntou:
- Dá para nadar um pouco mais rápido?
Falei que ia tentar. Nadei mais algum tempo para testar a resistência e tentar melhorar o desempenho.
O dia da prova chegou. A primeira bateria era a prova de quatro por cem metros estilo livre. Saí na frente conforme combinado. Eram três viradas. Na terceira virada percebi que estava sem forças. Tentei o jogo de pernas para melhorar o deslizamento. Os braços pesavam. Estava ficando bem para trás.
- Vai morrer ! - gritava a plateia.
Cheguei ao fim e vi meu colega, o segundo do revezamento, saltando. Saí da piscina e fiquei deitado sobre o ladrilho, extenuado. As provas seguiam. Alguns minutos haviam se passado e meu colega do comitê aproximou-se e perguntou-me:
- Como você está ?
- Mais ou menos – respondi.
- Tem mais um revezamento. Este menor. São quatro estilos, cinquenta metros. Precisamos de você...
Quando subi à plataforma, a plateia se agitou.
- É agora que ele morre ! – gritavam.
Eram apenas cinquenta metros. Uma virada apenas, estilo livre. Fiz o que pude. Cheguei atrasado, claro, mas completei a minha participação.
Apenas três faculdades estavam concorrendo. Agronomia, Economia e Medicina. A medalha de bronze estava garantida. Dias depois da prova, contudo, eu teria uma agradável surpresa. Procurou-me o colega do comitê para entregar-me uma medalha de prata.
- Não era de bronze ? – perguntei.
- Era, mas descobriu-se que um professor nadou uma das provas pela Medicina, o que é proibido. A Medicina foi rebaixada. Você é vice-campeão olímpico.
Guardo a medalha até hoje.

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