Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

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Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

6.3.18

MEMÓRIAS – CAPÍTULO 5 - ROZELI



Por
Jean Kleber Mattos

Recebi uma carta-ofício da EMATER-ES datada de 13 de agosto de 1985, com o seguinte texto: “Prezado senhor: Em aditamento aos contatos mantidos pela Dra. Antônia Lobo Olífio, técnica da EMBRATER, vimos solicitar a V.Sa. um estágio sobre plantas medicinais para nossa Técnica em Agropecuária Rozeli Coelho Silva, nessa universidade. Por oportuno, sugerimos que o treinamento seja realizado no período de 16 a 27/09/85, envolvendo a participação do Dr. Roberto, técnico da EMBRAPA. Certos de merecermos a atenção de V.Sa. para o acima evidenciado, colhemos do ensejo para apresentar-lhe nossos protestos de admiração e apreço. Atenciosamente. Waldemi José Hemerly.”
Apressamo-nos em confirmar o estágio solicitado e ficamos no aguardo da chegada de Rozeli, o que se deu alguns dias depois. Em virtude do período estabelecido pela EMATER-ES ser curto, mantivemos o ritmo intensivo, apresentando Rozeli ao Dr. Roberto Fontes Vieira e envolvendo-a em nossas atividades com cronograma diário, dois períodos. Ela trouxe muitas fotos da sua base, a cidade de Rio Novo do Sul, no Espírito Santo. Havia fotos de seu viveiro de plantas ornamentais e medicinais. Aos poucos comecei a desconfiar de que Rozeli conhecia mais sobre plantas do que eu mesmo e estava ali na UnB como minha estagiária. Seguimos a programação formal. Todo estagiário meu participa de todas as atividades do viveiro e da coleção, além de ser o convidado natural para assistir às aulas que dou sobre a matéria, nas disciplinas cadastradas e oferecidas.
Rozeli me encantou pela dedicação, suavidade, conhecimento sobre plantas, modéstia e história de vida. Mais tarde conheci seus filhos, dois rapazes e uma moça, Maira. A moça viria a residir em Brasília algum tempo depois.
Findo o estágio veio a fase de intercâmbio. Rozeli levou as mudas de que precisava para completar a coleção do horto de sua cidade e prometeu dividir conosco a sua rica coleção de espécies.
Em 1988 compareci, a convite de Rozeli e de autoridades municipais, ao I Encontro sobre Plantas Medicinais do Espírito Santo, promovido pela Escola da Família Agrícola de Rio Novo do Sul. O evento era patrocinado pela prefeitura de Rio Novo do Sul. Abertura bem formal com discursos de políticos e de coordenadores de projetos. O marido de Rozeli estava entusiasmado. Percebia-se nele uma vocação para a atividade política.
No dia seguinte à minha chegada, Rozeli levou-me para conhecer um horto medicinal comunitário. Tudo muito bem organizado e bonito. Canteiros e covas. Placas sinalizadoras com o nome vulgar e o nome botânico das espécies. A coleção se formara na base do voluntariado. Cada pessoa da comunidade podia contribuir trazendo uma ou mais mudas de alguma planta medicinal que tinha em casa. Dezenas de espécies estavam ali. Maravilha. Em dado momento uma placa sobre um canteiro me chamou a atenção. Estava escrito:”alfavaca Regina”. Eu não conhecia nenhuma alfavaca Regina. Perguntei então: “porque alfavaca Regina?”. Rozeli deu uma risada e respondeu:
- Porque foi a Regina que trouxe...ainda não determinamos a variedade...!
Alguma friagem sofrida na viagem deixara-me resfriado. Eu iria proferir uma conferência no segundo dia do evento e estava ficando sem voz. Comuniquei minha preocupação aos meus colegas organizadores.
Rozeli falou: - “não se preocupe. Isso é resfriado. Um amigo nosso na semana passada estava um lixo. O resfriado o estava matando. Tomou a nossa tintura de alho e ficou bom em dois dias”.
Perguntei então como se preparava a tal tintura. Ela não se fez de rogada: “São 150 a 200 gramas de alho cortado para cada litro de álcool de cereais. São 70% de álcool e 30% de água. Uma maneira prática de dosar o álcool é pegar um litro de álcool a 99% e retirar dele 300cc (um copo americano), e completar o volume com água. Põe o alho e deixa curtir por cinco dias em garrafa fechada num armário. Côa-se então e está pronta a tintura que pode ser utilizada por dois anos. Treze gotas em 150cc (meio copo americano) é a dose que pode ser tomada três vezes ao dia.”
Por duas vezes, pela manhã e no fim da tarde, tomei a tintura. À noite não era recomendado tomar, pois o muco liberado pode sufocar o paciente quando ele deita para dormir. Alho tem um cheiro ativo. O apartamento no hotel ficou um tanto impregnado.
Incrível, amanheci praticamente curado. Proferi a conferência com voz límpida. Meus temores não se confirmaram. Fui curado em um dia e meio com a tintura de alho.
No dia seguinte, mala pronta, hora de retornar. Um colega me perguntou sobre a hora de meu voo Vitória-Brasília.
- Doze horas – respondi.
- Pelos meus cálculos você vai chegar em cima da hora se partir agora. É provável que perca o voo.
- Uma senhora ao lado falou: “está partindo agora mesmo para Vitória uma ambulância levando um paciente. Tem um lugar sobrando. Se o senhor quiser carona...”
Aceitei de imediato. Aboletei-me na ambulância e seguimos viagem. Ambulâncias têm velocidade diferenciada. Além disso, não são retidas, via de regra, nas barreiras policiais. Não perdi o meu voo.

O DESENCARNADO

Em 1994 compareci ao XVIII Congresso Brasileiro de Nematologia em Campinas, São Paulo, onde apresentaria o trabalho “Suscetibilidade de doze germoplasmas de Mentha a Meloidogyne javanica. Na ida, meu voo fez duas escalas, Brasília-São Paulo e São Paulo-Campinas. Na segunda escala, o avião era pequeno e houve uma pane na pressurização. Alguns passageiros sentiram náuseas, inclusive eu. Jurei a mim mesmo naquele momento que na volta faria o trajeto Campinas-São Paulo de ônibus. Passado o congresso, tomei um ônibus que fazia a rota Campinas-Aeroporto de Guarulhos, ideal para quem ia tomar o avião. Quando estávamos chegando a Bauru, senti de repente um desdobramento. Vi o para-brisas do ônibus estilhaçando em câmara lenta. Em seguida o choque. Forte. O ônibus colidira com outro veículo. Fui arremessado de encontro à poltrona da frente. Meus óculos quebraram e a pulseira de meu relógio rebentou. Um colega que viajava ao meu lado tombou sobre minha perna esquerda. Quando dei por mim estava sangrando de um corte no supercílio. O motorista estava morto, pois a colisão fora frontal. A porta principal estava amassada. Não abria. Membros de uma equipe de voo que estava indo para o aeroporto, arrancaram a porta de emergência. Do lado de fora pessoas tentavam ajudar. Estacionaram um caminhão ao lado de nossa porta de emergência para que tivéssemos apoio ao sair. Dois caixotes de madeira empilhados ao lado do caminhão serviriam de degrau para ganharmos o solo. Na minha vez de descer os caixotes desmoronaram e por um segundo fiquei pendurado segurando na carroceria.
Logo chegaram as ambulâncias para nos levar ao hospital. Lá chegando, puseram-me numa maca para suturar o ferimento. Na maca ao meu lado estava o motorista. Morto. Um médico chegou e foi logo dizendo: - Esse aqui está morto ! O colega dele piscou e disse: “está desmaiado...” – como quem tentava avisa-lo que os pacientes nas macas ao redor podiam entrar em pânico. – Que nada – insistiu ele – “esse aqui já é presunto...!”
Minha perna doía. Os médicos, contudo, não deram importância ao sintoma pois eu havia chegado caminhando. A preocupação era com a cabeça. Um radiografia foi tirada e um laudo negativando coágulo foi emitido. Ainda no ônibus, quando eu falei que não precisava ir ao hospital, um dos comissários aeronáuticos ponderou: “Você está com um corte feio no supercílio. Precisa radiografar...já ouvi falar de gente que saiu serelepe de um acidente e morreu no dia seguinte. Além disso, esse corte, se não for devidamente suturado, vai virar uma cicatriz feia”. Esse último argumento me convenceu. Aceitei o socorro médico.
Liberado do hospital, tomei um táxi para o aeroporto. Negociei previamente a longa corrida em busca de um preço razoável. Não quis esperar o transporte da empresa, que por sinal tinha um nome singelo e elegante: chamava-se CAPRIOLI.
Eu perdera o voo. No aeroporto, como todos já sabiam do acidente fomos relocados eficientemente para os voos mais próximos. Liguei para a minha mulher avisando que o voo mudara mas que estava tudo bem.
Chegado a Brasília, uma semana depois fui convidado a comparecer à INTERPOL para contribuir com a investigação do acidente e declarar meu bom estado de saúde, informação fundamental para a Perícia de Seguro.
Um ano depois, eu estava participando de uma mesa mediúnica em Brasília e ao final da sessão, no momento do depoimento dos médiuns, um colega meu relatou que uma entidade havia feito contato com ele, repetindo a seguinte frase: “fala a palavra CAPRIOLI...ele vai lembrar!”. Nesse momento eu levantei a mão e disse:
- “É comigo...!”
Nenhum dos colegas sabia da história.

2 Comentários:

Blogger MAIRA COELHO SILVA disse...

Parabéns pela decisão de compartilhar ainda mais seus conhecimentos. Gratidão pela amizade que tem pela minha familia. Você é D+ em tudo e tudo que o cerca vira luz.

6.3.18  
Blogger Jean Kleber disse...

Obrigado Maira por sua bondade e gentileza.

13.3.18  

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