Suaveolens

Este blog foi criado por um cearense apaixonado por plantas medicinais e por sua terra natal. O título Suaveolens é uma homenagem a Hyptis suaveolens uma planta medicinal e cheirosa chamada Bamburral no Ceará, e Hortelã do Mato em Brasília. Consultora Técnica: VANESSA DA SILVA MATTOS

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Local: Brasília, Distrito Federal, Brazil

Cearense, nascido em Fortaleza, no Ceará. Criado em Ipueiras, no mesmo estado até os oito anos. Foi universitário de agronomia em Fortaleza e em Recife. Formou-se em Pernambuco, na Universidade Rural. Obteve o título de Mestre em Microbiologia dos Solos pelo Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco. Também obteve o Mestrado e o Doutorado em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é pesquisador colaborador da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília.

13.4.13

MONTE CASTELO EM QUATRO VENTOS



Por Raymundo Netto
¹ A denominação de “Monte Castelo” remonta da famosa batalha, e o bairro a recebeu em 15 de junho de 1945.

² João de Pontes Medeiros, português, importante nome da história da telefonia, do transporte público e da saúde no Ceará, antigo proprietário das terras que, aos poucos, foram se desenhando em bairro.

1971. Meu pai de cinco filhos, num jeep velho, levava a família à casa nova, no Monte Castelo¹, antigo bairro do açude João Lopes. Lembro de ele trazer-me, menino, nos braços, à beira da pracinha redonda, a João Pontes² . Para mim, no tempo, aquela era enorme, encantada por brinquedos de ferro: gangorra, balanço, macaca, escorregador... Perguntei, com lustro infante: “Papai, tudo isso é nosso?” “Tudo”, deu por certo.

A praça tinha, por coração, imenso chafariz de azuis lejos, vestido de pedras de cores, as mesmas dalgumas paredes do entorno, a estrelejar. Abraçava-o dupla escadaria e “palco” em mosaico de fragmentos de cerâmicas sanguíneas. Árvores sombrejavam trechos de brancos e róseos quartzos a gravurar estrelas, luas e jangadas pretas. Eram nela feirinhas das flores, comícios, a chegança alegre do parque São Luiz, o repouso do maracatu, as peladas na areia branca, as paqueras com a moçada da Villa Cysne, os afetos sob copas verdes a filtrarem pálida iluminação dos postes, ou as conversas demorosas em bancos de cimento — as traves dos futebóis — ao estalar dos carrinhos de pipoca, ou à chiadeira alegre dos de algodão doce, servido assanhado em papel de enrolar pão. Onde se via meninos correrem atrás do triângulo tilitante da chegadinha, do sino dos picolés, ou o pouso breve dos alunos do curso de datilografia do Círculo Operário e dos misseiros dominicais da Senhor do Bonfim. Ali, em dias, rapazes em tamancos duelavam com arraias de corpo delgado em cerol; em noites, grupos saíam, nas madrugais de reisado. Em chuvas, mocinhas a chutar águas em busca de bicas tiritantes. À frente, no Clube Internacional, bailinhos de carnaval para crianças, quadrilhas juninas e encontros festivos. Depois, a receber as pancadas do “Agito Jovem”, forrós e festas punks — em jaquetas pretas, envoltos em correntes, cabeças de têmporas raspadas, tatuagens e botas, a chutar, cobertos de lua, os sacos de lixos das calçadas.


Alvorecia no varrer de ruas. Peixeiros pregoavam, assim como leiteiros, vendedores de legumes e de limões. De graça, só risos a freguesas, as mesmas a trazerem às axilas a caderneta de fiado da Casa Ceará e das bodegas de pão sovado, dim-dim, café torrado e embalado, na hora, em sacos de papel. Vinham na pressa do vagar de chinelas, ao som da passarinhada do capitão Costa a animar manhãs frescas de castanholeiras e jambolanas perseguidas a pedras por moleques gazeteiros da Santa Edwirges. Ou, no domingo, em filas imensas, no abate do frango na hora, da d. Vanda. Nas vesperais, eram de se cumprimentar rodas de calçadas, onde vizinhos — todos tinham nomes — se reuniam, por motivos fossem: conversa a jogar fora, fofocaria, a “chuva de sabão” na rua da Siqueira Gurgel, ou para a torcida do futebol gritado no radinho de pilha. Por muros baixos, uns chamavam os outros, das televisões em preto e branco, a lagrimarem por Selva de Pedra e Escrava Isaura. Das ruas, por bom tempo de pedras toscas, acenavam ao Samuel, motorista das linhas “Monte Castelo” e “Conrado Cabral”.


Às noites, jovens abriam as portas de casa de piso encerado, de luzes penduradas no teto, a receber amigos, amigos de amigos e completos desconhecidos em “sons”, onde vendiam caipirinhas, rifas e bingos, e ensaiavam melosas histórias de amor. Moradores até da vaidosa Aldeota encontravam-se no Real Drinks, em serestas do Steak House, na sorveteria Sibéria — a comemorar a estampa de Novinha, filha do bairro, rainha do carnaval, em capa de jornal — ou amanheciam de noites compridas na churrascaria Alikate.


Muros hoje cresceram. Pessoas entram e saem silenciosas, anônimas. Multiplicam-se invasões e medos da desigualdade, afastando os bem-te-vis, papa-arrozes e lavandeiras. Não fossem churrascarias, bares e barulhos da avenida, seríamos desertos. Na pracinha caduca, apenas acácias enrugadas e escuras, a respirar saudades de tempos idos, as crianças nos pula-pulas e o último pipoqueiro, chorando silencioso, em sal e manteiga, o que rexiste.


RAYMUNDO NETO


Caminhante por convicção. Escreveu Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, romance premiado pela Secretaria da Cultura. É autor de Os Acangapebas, contos, premiado pela Academia Cearense de Letras, e de três infantojuvenis.

1 Comentários:

Blogger Jean Kleber disse...

Simplesmente fantástica, a sua crônica, Raymundo Netto!!!

13.4.13  

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